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Luís Vendeirinho

Umas linhas de Isabel Lousada acerca de DUO MUNDI

Curioso como nestas «coisas da escrita» como na vida acontece também, a primeira impressão é, afinal, quem dita a empatia ou a falta dela.

Conheci o escritor antes da obra. Ou, deverei antes dizer por causa dela. Acaso ou causalidade o instante ocorreu. Numa conversa serena, aprazível e esclarecedora ao ponto de procurar aperceber-me de que volume se tratava o que me era oferecido… Qual brilhante de primeira água, resplandecente nas mãos do criador que o entrega à mercê de uma desconhecida que assim o vê com luz própria.

 A imprevisibilidade dos fragmentos que se vão conjugando no fio do tempo e depois de vividos traduz(em) a(s) nossa(s) vida(s) agora reflectidas nas dos protagonistas, poderia revelar-se um momento disruptivo. Mas não. A alternância oferecida às/aos leitores é, por habilidade do autor, na obra em apreço, uma linha de reflexão aprazível. Alfa e Ómega, princípio e fim são mediados por tempo que transcorre entre chegadas e partidas. Vida e morte, luz e sombras, noite e dia contados ora pelas personagens ora pelo narrador criando um clima próximo do romance policial. Os cenários trazem traços de um «coup d’oeil» de um artista munido de um cinzel com que grava os signos na folha que altiva e branca se apresenta. Afinal interrogamo-nos: vivem os que jazem mortos… Ou, pelo contrário morreram já os que se arrastam ainda pela vida. Sentimentos, sensações. Carne, espírito. Multiplicidades que a dualidade não alcança. Possibilidades, desencontros, desejos? Ciúmes? Raiva, amor? Pensados uns vividos outros. Numa ou noutras vidas?

Já o título e o subtítulo são prenúncio dessa duplicidade, ou melhor, continuidade… Duo Mundi. Romance. Do Latim ao Português... Em que nos é contada a múltiplas vozes, sem que a esquizofrenia se deixe sentir. Não se lê de um só fôlego este romance, mas ao longo das 300 páginas encontramos paragens que obrigam o/a leitor/a a respirar. A reflectir na existência e nas palavras que desenhadas vão formando pensamentos que por sua vez se vão tornando autónomos e expandindo-se alargam ao universo uma forma de combustão que é chama viva, sarça-ardente, desenfreada, correndo e depois clamando por vagar…  Deleitando-se noutras divagações que o suspense alimenta.  

 Duo Mundi revela a sensibilidade de um escritor a quem conseguimos sentir o pulsar da sua escrita partilhando a maturidade de quem conhece os segredos do tempo e os mistérios do infinito. Destino ou predestinação o acaso não é senão a conjugação de tempos chamados por forças, consciente ou inconscientemente, vultos que se pressentem e não se vêem.

Este romance que podemos ler como uma série de pequenos contos é recomendável a tantos quantos queiram aventurar-se numa simbólica viagem capaz de conduzir a lugares inóspitos e longínquos sem sequer chegar a sair de si mesmos.

A epígrafe retirada de Franz Kafka: «Quem procura não encontra, mas quem não procura é encontrado.» é, desde logo, prenúncio de encontros e desencontros gerados num infinito (por Alguém maior?). Alternativas ou a falta delas justificam a leitura desta obra que se impõe num quotidiano em que a reflexão é invariavelmente preterida em função da automatização da existência, se quisermos, na negação de si mesmo.

Um bom ponto de partida para percursos desconhecidos … libertos de freios e abraçados pelos instintos que vale a pena ler.


Isabel Lousada (investigadora-auxiliar do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa e investigadora do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)