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Luís Vendeirinho

UM VÉU NA MADRUGADA (conto)

- Para a solidão já estou vacinado.

A visita da Senhora Francelina não era novidade: há muito que usava a chave de casa. Cuidava da higiene, arrumava a loiça, punha roupas a lavar se necessário, e com as compras do dia preparava duas refeições. No tempo que sobrava, conversavam de assuntos triviais como os estudos das filhas dela ou as memórias dos pais de Luís. Nunca a vira como mera criada doméstica, era mulher de trabalho que sabia mais da vida do que muitos letrados, assim cria ele a quem uma conversa digna desse nome sabia ao mais delicado néctar.

- O menino diz isso porque não procura quem o faça feliz.

- A Francelina sabe que o amor não se procura? Encontra-se. Já o Kafka escreveu que quem procura não encontra, mas quem não procura é encontrado.

Fez-se silêncio enquanto ele se aproximou da janela do escritório. A rua, a sua rua que tantas imprecações despertara por força do ruído, do cimento e do alcatrão, de seres vivos só exibia os plátanos no jardim defronte e o voo dos raros pássaros que cruzavam a cumeeira. Sobrevieram memórias como as dos rebanhos que avisavam da sua chegada com o tinir dos guizos, a melodia vinda das gaitas dos amoladores, a cantilena dos meninos a caminho da escola, até que a Senhora Francelina quebrou a magia do momento para se despedir.

- Estava a pensar em como os tempos mudam, nos primeiros anos em que aqui vivi.

- Sempre preso às memórias. Tem os seus pratos prontos. Quer que lhe faça umas compras para a semana?

- Se puder. E tenho um outro pedido: aqui dentro não use luvas, nem máscara. Não quero ter de imaginar o seu sorriso.

A Senhora Francelina abriu os braços dando-lhe a habitual saudação à distância, sem responder, e saiu escada abaixo.

Ante a conserva de sardinhas no prato, acompanhada de uma salada, Luís tinha presente as palavras do pai quando lhe dissera que as conservas, em tempos adversos, eram tão úteis quanto a paciência, de longo prazo até se esgotarem. O programa da tarde começou com os Nocturnos de Chopin, resgatados da colecção pródiga em música clássica que tinha herdado. Dos livros em standby, hesitou entre os sonetos de amor de Neruda e O Amor nos Tempos de Cólera. Pelo sim, pelo não, recostou-se no sofá e colocou ambos no colo, e adormeceu antes que os tivesse aberto.

Bosques rasgados pelo luar, areais inundados pelo mar, labirintos, escadarias, ecos de conversas em caves, antiquários, salas em sítios imaginados, livros com páginas em branco, monumentos em cidades por visitar, lagoas, paisagens sem homens, mulheres ocultas, estações de caminhos-de-ferro, casas por habitar, pianos à flor das mãos, cânticos, plateias, cerimónias, discursos, medos de infância, laboratórios abandonados, tesouros, voo, vertigem, esconderijos, mistérios, tudo cabia no arquivo de Luís e a ele, no conforto da cama, bastava-lhe a primeira imagem para viajar nesse mundo privado. Nessa tarde afundou-se no sonho súbito. E reviu a derradeira visita ao jardim na companhia do pai. O menino, na tarde de Inverno, dava a volta ao terreiro encharcado enquanto pedalava sobre o triciclo e as rodas se prendiam na lama. Ao passar junto do pai sentado no banco, Luís fazia-lhe a continência e continuava. O banco ficou no jardim durante muitos anos, o pai foi-lhe roubado por um médico que mentiu ao prometer devolvê-lo.

A campainha da porta soou duas vezes. Atordoado, deu com a Gracinda.

- Tens visto o Toninho?

Luís, Gracinda e Toninho eram os três resistentes do prédio. Outros mais eram aves de arribação. Tanto Gracinda como Toninho eram de idade mais avançada, uma espécie de guardiões de lembranças. Ela tinha uma xícara de açúcar de préstimo, para solução culinária de recurso, ou duas rosas de prenda quando comprava flores para sua casa. Toninho, hábil em consertos domésticos, fazia dessa sua virtude disponibilidade para ajudar se fosse preciso. Ia para além dos setenta e sempre fora o Toninho, um consolo que o fazia esquecer as rugas e as maleitas do corpo. A cave onde vivia dava-lhe direito ao usufruto do quintal do logradouro, onde cuidava de uma horta e de algumas árvores de fruto. Fosse época de nêsperas, de laranjas ou de ameixas, fazia um cabaz para cada vizinho sem pedir em troca mais do que um sorriso. Da janela, Luís acenava-lhe nas tardes de Primavera, quando as andorinhas vinham fazer os ninhos nas varandas e as primeiras flores despontavam no arvoredo, para conversarem sem alturas nem distância. Se Gracinda punha roupa no estendal do terceiro, ficava também ela na cavaqueira. O tempo se encarregara de fazer mato no quintal.

- Há dois dias que não o vejo. Logo vou saber se está bem.

Os dias de reclusão a que tinham sido obrigados foram um despertador para a sensação de surpresa e que, sem aviso, se transfigurou no receio, algo estranho que prenunciava o medo, esse sentimento que turva o discernimento nos apaga a luz da esperança. Sobre o bairro descera a bruma invisível da tristeza, contagiosa. Tão apartados entre eles, nunca haviam estado tão irmanados.

À luz amarela da escada, o rosto de Toninho com o cabelo desgrenhado que encimava a sua figura enrolada no roupão, não deixava margem para dúvidas: o amigo estava doente, apesar de dizer que não.

- É só uma febre ligeira. Isto há-de passar. – Respondeu com a mão sobre o peito.

- Tem juízo. Vou pedir ajuda. Dá-me a tua chave, eu já volto.

Era noite avançada quando levaram o Toninho, três homens de branco cujos rostos e nomes Luís nunca veio a conhecer, nem soube para onde. No patamar do terceiro andar, Gracinda espreitava pelo poço e benzeu-se antes de fechar a porta.

A Senhora Francelina tinha-lhe preparado um pitéu, bem ao gosto de quem apreciava mais do que meros enlatados. No mercado, onde agora se fazia fila como sempre fora hábito nas bilheteiras para as festas, um pedaço de frango assado e uma meloa eram preciosos. Luís não jantou, encheu um cálice de uísque e sentou-se à secretária com uma folha em branco e a caneta-de-tinta-permanente que usava em ocasiões especiais.

           Nesse serão, não manuscreveu uma só linha. Tudo tinha já sido dito e inventado. Se era opinião o que o jornal lhe exigia, não tinha, nem tão-pouco certezas acerca do quer que fosse. Sabia de um amigo ceifado sem aviso, da rua entregue ao vento, do eco da escada, da ilusão de viver. Antes de se recolher, colocou um punhado de sementes na gaiola onde cantava o seu pintassilgo, deu-lhe a boa-noite e pensou em deitá-lo a voar para onde o destino o levasse. Apagou a luz do quarto, trazido pelo vento ouvia-se o latido de um cão a desafiar a noite.

           A Senhora Francelina chegou cedo, já Luís folheava uma revista sobre destinos de viagem, que tinham entalado no cacifo do correio, sentado na marquise a provar o sol matutino.

           - Não tocou no prato que lhe preparei, a cama por fazer… toca a arrebitar que a procissão ainda vai no adro.

           - Estou aqui a matutar na minha sina: as pessoas de quem gosto são sempre raptadas. Umas vão de livre vontade, outras são levadas sem aviso.

           - Se forem de livre vontade não são raptadas.

           - Claro que são, por raptores como a malícia ou a ambição. O desinteresse tem sempre uma causa. Desconhecida, mas tem.

           - E o menino deve ser uma excepção. Tanta gente que eu já servi e de quem só recebia ordens, sem um elogio, sempre prontos a apontar um defeito no trabalho. A única obrigação era pagarem-me o salário, tantas vezes tarde e a más horas. E algumas pessoas de quem eu gostava.

           -  Não percebeu. Refiro-me àqueles que eram insubstituíveis.

           A Senhora Francelina suspirou, e olhou-o com a expressão de quem compreendia haver histórias por contar, enquanto Luís apontava para o telhado fronteiro.

           - Ontem vi, pela primeira vez, um gaio a esvoaçar no quintal. Um gaio aqui era improvável.

           - A cidade está adormecida e as aves sentem. É por isso que se aventuram aonde dantes evitavam. Trouxe-lhe pão fresco e vou fazer um café. Trate de se arranjar que a vida não para.

           - O Toninho está no hospital. Levaram-no ontem. – Aliviou-se Luís sem desviar o olhar da janela.

           - O senhor da cave?

           - O meu amigo.

           - Já não era novo. – Descaiu-se Francelina.

           - Não era? É velho em casa, no hospital, a pagar impostos, a votar, a pagar multas. A moral desta doença é desfazer-se do lixo, salvo seja. A real doença já estava instalada, bastava abrir as notícias e ver as escolas ou os hospitais destruídos na guerra e ouvir os discursos dos responsáveis. É lá longe, é sempre lá longe que se passa fome. Até na berma do passeio público é longe. Até ao dia em que lá longe é dentro da nossa casa. Eu esperava mais do mundo quando era rapaz, tinha a ilusão de que a ciência e o sangue novo da juventude iriam mudar o curso da história para melhor. Afinal remámos contra a corrente. O que a malta queria era festa, e deram-lhe festa. Ou outros trataram da sua vida e os que sobraram estão a pregar no deserto. Está a perceber?

           - O menino hoje está pessimista, com razão ou sem ela. Desculpe-me a observação, eu queria dizer já não é novo. – Francelina continuava a lide da cozinha.

           - Enquanto estava a folhear esta revista veio-me à memória uma conversa com o Toninho, era eu miúdo. Agora compreendo o motivo pelo qual me dedicava tanta atenção, ele que não encontrava quem o ouvisse. Dizia-me para eu abrir os olhos para além do bairro e que, se eu tivesse a coragem e a curiosidade suficientes para tanto, iria ficar surpreendido, conquistado, penso que foi a palavra que usou. E que não fosse em balelas, como essas que os esquimós vivem no Pólo Norte e os índios vivem na selva.

           - E não é verdade?

           - Não se trata da verdade, mas da correcção. Ele também insistia em dizer que viajar não significa conhecer monumentos, que os palácios e as catedrais são construídos por homens e que a alma dos povos pode ser o destino do viajante. Não se enganava, o meu amigo, apesar de sempre o ter conhecido refém daquela casa pouco iluminada. Ironia do destino ir agora à descoberta do fim, sem passaporte. Não importam nem o nosso nome, nem os nossos actos, somos um número invisível na estatística.

           - Eu acredito que haverá uma justiça para os nossos actos. – Francelina escondeu uma lágrima com a manga da bata.

           - É um privilégio crer noutra justiça. A Francelina nunca o escondeu, se não esse crucifixo ao peito era apenas um adorno. Os crentes, seja a religião qual for, têm uma bengala, um amparo. Mas não sofrem menos, as vossas dores são confessadas num refúgio, na oração, por exemplo. Se lhe derem uma vacina que a proteja, ela foi obra dos homens.

           O toque da campainha interrompeu o diálogo e, pela insistência, seria o carteiro. Luís abriu-lhe a porta para a rua e saudou-o desde casa.

           - Hoje não há nada. Até amanhã. – E foi-se pela rua deserta.

           Antes de Francelina se despedir, Luís colocou-lhe na mão o envelope com a semanada devida.

           - Amanhã não me compre o pão. Eu trato disso e aproveito para apanhar ar.

           Se era o pão que estava em causa, devia respeitar o repto do jornal para a breve coluna da semana. Já a tarde ia avançada, pegou na caneta e tentou de novo as linhas que lhe eram exigidas. Depois decalcava-as para o écran.

           «A História é fértil em documentos sobre barbaridades cometidas “em nome de”. Desde a Inquisição á Difusão da Fé, ao Colonialismo e ao Esclavagismo, à Ditadura do Proletariado, à Supremacia da Raça, à Defesa dos Impérios, à luta pelo Califado, aos Campos de Refugiados ou às garras ocultas do Grande Irmão, todos sabemos de argumentos para a privação da liberdade, para a sujeição e o martírio. O Deus dos homens vestiu-se com ouro, o Templo são mercados bolsistas. E a massa humana assiste ao abuso sem a pálida ideia dos caminhos tortuosos que a envolvem. Assim se faz o destino dos povos, onde cada homem é vítima e responsável. Até que a Besta adormecida investiu, cega, a despertar o medo nos Quatro Cantos do Apocalipse. Quando acordarmos, teremos fronteiras entre cada um de nós, a defesa da casa far-se-á no espaço público, a saudação de cada dia terá o ferrete da desconfiança. Poucos haveremos de encontrar no brilho dos olhares a cumplicidade com a esperança. O mais será a obra daqueles que encontrem na ciência o remédio para os males do corpo e na lucidez a força para sobreviverem.»

           Não sabia se iria merecer ser publicado, poisou a caneta e ligou o rádio para ter companhia no vazio da casa.

            O dia amanheceu fresco, tinha chovido durante a noite, a pontilhar o relvado do jardim resistiam as florzinhas amarelas e brancas, o céu tinha cor-de-cinza. Luís agasalhou-se e foi saber como paravam as modas no bairro. Não tinha dado meia-dúzia de passos na calçada quando ouviu chamarem-no pelo nome. Era o rapaz de sempre, cujo chamamento soava ao grito por ajuda, à prece pelas palavras que a maioria da vizinhança lhe negava. O tino tinha-o deixado só, noutro tempo ainda fora possível entabular conversa com ele, com o passar do tempo só a boa vontade de alguns lograva dar-lhe alívio quando implorava por uma simples resposta, e repetia frases atrás de frases como se dirigisse aos surdos. Luís não ignorava a confissão do outro, já tinha perdido a conta aos anos volvidos, ao dizer que tinha uma namorada, que a casa da namorada tinha rebentado com ela lá dentro. Ao somar dois mais dois, era verdade. Era uma miúda que passeava o seu cão sem alarido, cujo nome foi revelado numa notícia sem interesse, alguém que passara à história para deixar no aterro uma alma inquieta, cujo desnorte era a prova de um amor misterioso, sem testemunhas.

           - Vais para o trabalho?

           - Não. Tu devias estar em casa.

           - Onde é que tu trabalhas? O meu irmão chega para a semana. Sabias?

           - Ainda bem. Assim vais ter companhia.

           - Eu sou músico. Sabias?

           - Então aproveita, mas fica em casa.

           - Já viste as minhas botas novas?

           - São bonitas.

           - Tens um cigarro?

           - Não fumo na rua. Deixei os cigarros em casa.

           - Eu fumo destes. – Sacou uma caixa de dunhill e exibiu-a.

           - E querias um cigarro dos meus. Tem cuidado, não andes por aí se não for necessário.

           - Vais para o trabalho?

           Luís apressou o passo, enquanto o outro ficou a acender um cigarro, e virou a esquina da rua à procura de uma cara familiar.

           A esplanada do café tinha sido desmontada, os guarda-sol recolhidos. O senhor João, para uso dos fiéis dos jogos de sorte e azar, tinha colocado na rua uma mesa com uma esferográfica presa por um cordel para preencherem os boletins. Encostado à ombreira da entrada, esperava por uma alma com quem pudesse falar. Ao ver Luís aproximar-se, não hesitou em fazer o convite.

           - Aceita um café? Tenho a máquina ligada.

           Não havia como recusar, não seria o café que estava em causa. Conversa puxa conversa, o anfitrião observou que uma sociedade justa tinha a responsabilidade de proteger os mais novos e os mais velhos.

           - Nós desenvencilhamo-nos, de um jeito ou de outro. Veja os meus velhotes na aldeia, que estão por conta deles.

           - Talvez possam sobreviver melhor, com uma ponta de sorte, claro. Tiram da terra o sustento como já faziam dantes e têm ar puro. A essa riqueza só a gente do campo dá o valor.

           - Tudo. Lá em casa tudo o que entra vem da terra, e do trabalho deles. A água é de uma nascente, se o senhor a provasse iria ficar espantado. Na bouça têm lenha para o fogão e para a lareira, para o fumeiro. O velhote já não tem cabeças para levar para o monte, as pernas não deixam, mas ainda criam um porco e umas galinhas. O azeite é deles, o pão cozem-no no forno, o quintal não precisa muito trabalho para dar as batatas. Se visse o sabor da fava da horta, não tem nada a ver com esses congelados. E têm pinga para o ano inteiro que não é da nossa vinha, mas é melhor que muito engarrafado. O senhor diga-me: eles precisam mais do quê? De saúde, está visto.

           - Nós também. Não tarda vai poder visitá-los.

           Luís agradeceu o café e deixou-o a pensar na aldeia que o vira nascer, e fugir para uma vida melhor. Não tinha andado um quarteirão, Luís já percebia a figura da Senhora Fernanda, a dona da retrosaria entretanto fechada. Vinha de casa com a marmita, cujo destino quem a conhecia adivinhava. Ia dar de comer aos gatos vadios, aos seus devotos amigos que só toleravam a proximidade da benfeitora. Era um casal especial, ela e o marido Alfredo com quem Luís convivia desde a juventude. A presença espampanante dela contrastava com o olhar cavado sob umas sobrancelhas negras e fartas do homem, cujo rosto denunciava austeridade e prontidão para o confronto. Era um erro essa primeira impressão, Luís sabia-o, como sabia de alguém dotado, tradutor de hebraico e russo entre outras línguas que dominava e com quem, nos momentos em que privavam, um serão de convívio sabia sempre a pouco.

           - Os meus meninos já estão à espera. O Luizinho tem estado bem? Ainda ontem perguntei por si na padaria.

           - Foi isso mesmo que me trouxe à rua, vim comprar pão e desentorpecer as pernas. O Senhor Alfredo como está?

           - Já o conhece, de poucas palavras e não quer falar da peste. Enfiado nos livros como sempre. Ele diz que vamos ter a vacina muito antes do previsto. Deus o ouça.

           - Não há fartura que não dê em fome, ou depois da bonança vem a tempestade. Por isto é que o seguro morreu de velho, minha amiga. Os seus gatinhos já estão à espera.

           Já não havia cabine telefónica junto à praceta, as antenas nos telhados eram coisa do passado, o estacionamento era controlado por parquímetros, a taberna dera lugar à esteticista, a drogaria fora ocupada por um prestamista e o espaço da antiga padaria tinha sido alargado para uma clientela mais exigente, com pastelaria fina e um écran onde passavam o futebol. Luís pegou no cartuxo com os velhos papo-secos e foi-se recolher.

            - A senhora do terceiro andar esteve aqui à sua procura. Estava um pouco nervosa, e pediu para o menino ir lá a casa logo que possa. – Francelina era boa observadora, se dizia que a Gracinda estava nervosa era porque algo imprevisto se passava.

           Luís galgou os quatro lances de escada. Quando Gracinda o viu, juntou as mãos em gesto de agradecimento e apontou-lhe o caminho até à sala de estar.

           - O meu Manuel não está bem. Desde que o patrão o dispensou não fala doutro assunto. Quase não leva à boca o que lhe ponho no prato e hoje não disse coisa com coisa. Veja se ele o ouve a si, que eu não sei o que fazer.

           O homem, sentado num cadeirão, ante a presença de Luís fez um sorriso amarelo e nada disse. Manuel trabalhava numa empresa de entregas como motorista, se tinha horas extra trazia a camioneta que ficava estacionada com o rodado dianteiro sobre a calçada. Ele e a mulher cuidavam de uma quinta nos arrabaldes da cidade, aos fins-de-semana, e era hábito oferecer a Luís uns figos, na época, ou uns raminhos de ervas aromáticas. Nessa manhã era ele quem carecia de um gesto amigo.

           - A sua preocupação sobre o trabalho é natural. O Manuel foi dispensado até a situação melhorar ou foi despedido?

           - Foi só por um tempo, estou cansada de lhe dizer. – Interrompeu Gracinda.

           - O Manuel pense na sua mulher. Ela só o tem a si e você também só pode contar com ela. Não é fácil vermo-nos sujeitos a ficar fechados, ou quase. Agora você decide como quer encarar a realidade. Se quer ver o lado negro da vida, quanto mais empreende nele mais negro fica. Não ponha na balança os seus medos e as suposições, olhe que o medo é mau conselheiro e de opiniões estamos fartos. Os bruxos e os adivinhos andam à solta, mas não serão eles quem lhe dará a resposta para os problemas que surgirem. Ponha na balança a precaução, aquilo de que necessita e não se esqueça do que tem. Você já não é criança, olhe para o que vai por esse mundo fora.

           - Com o mal dos outros posso eu bem. – Por fim, Manuel quebrou o silêncio.

           - Ouça. Ninguém o despediu. Arrebite, homem! Somos uns para os outros, eu tenho a porta sempre aberta quando quiserem. Vá-se compor, que eu peço à Senhora Francelina para vos trazer umas queijadas que estão no forno, para a sobremesa.

           Não fora missão fácil, a de Luís. Antes de ele sair, Gracinda murmurou-lhe a sua gratidão.

           - Só tu podias convencê-lo. Bem-haja.

           - Afinal não era nada de grave. Não tinham como saber da forma do pagamento das rendas este mês. – Uma mentira piedosa, por respeito à confiança que merecia. Francelina levaria as queijadas sem comentários, se bem a conhecia. A manhã estava feita, num tempo precioso que devia ser bem vivido.

           Luís não usava de agenda escrita para os compromissos, nem apontava quaisquer números de código para os actos que a tecnologia envolvesse. Assim se protegia de intrusos e sabia de quando e do que fazer nessas datas. As memórias de uma vida eram um acervo tão detalhado que evitava confidências sobre ele, habituado às reticências daqueles a quem contava episódios, nomes, dias, pormenores que parecia saírem duma imaginação fértil. Por outras palavras, era difícil encontrar um interlocutor que o ouvisse com interesse, que pudesse ver mais fundo nas suas histórias, aquelas onde se abrigava e cujo sentido só a ele dizia respeito. Foi-se recolhendo no palco dos afazeres quotidianos, longe das cerimónias e da convivência que sentia não serem terreno para pisar. Tinha presente a hora em que dissera em público lembrar-se de a mãe lhe dar banho no lavatório, teria ele semanas de vida, e as risadas que tinha despertado. Na ocasião só pôde responder que a memória é o reduto inviolável da liberdade.

           Enquanto degustava o pitéu que a senhora Francelina tinha preparado, acompanhado dos Concertos de Brandenburgo, o olhar de Luís foi repousar na telefonia sobre a qual tinha uma moldura com as raras fotos de ambos os pais. Eram jovens, ele de fato completo e ela num vestido estampado, encostados ao Studebaker preto que acabou por ser vendido nunca soubera porquê. Teria algures uma caixa com as fotografias que esperavam por um álbum, um entretém para a tarde chuvosa.

           Era ele criança, sentado na cadeira de repouso que havia na varanda, de calções e perna traçada com a expressão de quem desafiava a sorte. Era ele, ajoelhado à Virgem no dia da Primeira Comunhão, com o sorriso que prenunciava as dúvidas sobre os rituais religiosos. Era ele, empoleirado num cipreste, senhor da sua coragem. Era ele, numa rara festa de aniversário celebrada com os primos, a despertar para a alegria como passageiro clandestino. Era ele, a receber uma medalha de menção honrosa, como gérmen da entrega aos labirintos dos textos. Era ele, ao colo da mãe junto à janela, que viera ao mundo para representar e sonhar. Havia também rostos de pessoas que tinham passado por ele e de quem não soubera notícias. Espalhadas sobra a mesa, as fotos eram um puzzle impossível de montar, a cronologia daquelas imagens paradas guardava uma lógica demasiado óbvia, talvez fosse essa a razão de terem sido confinadas a uma caixa de cartão que já servira para embalar uma prenda esquecida. Luís colocou a tampa na caixa e devolveu as fotografias ao sítio donde tinham vindo e onde pertenciam. Apenas uma foi salva do fundo onde tinham dormido, a de Toninho e Luís no quintal e na companhia do Tejo, o velho cão que não era dado a festas, com excepção do menino que o visitava.

           Acendeu-se a iluminação pública, as lâmpadas tremelicaram num branco pálido e em breves segundos a rua foi inundada pela luz alaranjada. O sino da paróquia deu horas vibrando até onde podia. Luís, que não tinha a noção do porquê, sempre que um sino soava estremecia na sensação de que alguém chamava por ele. Na infância, as noites de Inverno que passava debruçado sobre a secretária a fazer contas, a estudar nos livros da escola primária e a redigir sobre a sebenta, tinham por companhia o vento a silvar pelas frestas da janela e o toque do sino. Afastava a cortina de nylon, olhava através da vidraça o chão molhado e regressava aos livros refreando o grito de quem foi deixado à sua sorte, prisioneiro sem culpa formada. De súbito, o telefone esquecido na prateleira do livreiro deu sinal de vida. Era uma voz feminina.

           - Boa noite. Estou a falar com o familiar do senhor António Branco?

           - Não sou familiar, sou um vizinho. Donde fala?

           - Estamos a ligar do hospital e pretendemos falar com um familiar.

           - Minha senhora, o senhor António Branco não vive com familiares. Eu sou o vizinho que tratou do internamento. Pode dizer-me do que se trata?

           - O senhor pode dar-me o contacto de um familiar dele?

           - Não tenho qualquer conhecimento com a família dele. No hospital devem ter um registo do internamento. Aliás, a senhora teve acesso ao meu telefone para todos os efeitos.

           - Aguarde um momento que vou confirmar.

           Depois de uns minutos lentos, a voz regressou.

           - Obrigado pelo tempo que esteve a aguardar. Nós vimos informar o falecimento do senhor António Branco na madrugada passada. É urgente que se dirija ao hospital para assinar os documentos.

           Percorrido por um calafrio, Luís gaguejou.

           - Eu não tenho autoridade para esse efeito. Se não houver quem resolva o caso, como há-de proceder o hospital?

           - Dessa informação não disponho. No horário do expediente pode contactar os serviços administrativos. Tem mais alguma questão que gostasse de colocar?

           - Tenho, muitas. Aquelas para as quais os senhores não têm resposta.

           - Os nossos sentimentos e boa noite.

           Em segredo, Luís pediu desculpa ao Toninho. Sentiu-se sujo pelo artifício que o pouparia aos tostões das cerimónias fúnebres. De qualquer jeito, era inevitável que lhe barrassem o caminho para estar presente nelas. O amigo seria notícia, anónimo, um número, um pixel de gráfico. Na garrafeira da sala morava a tentação, a possibilidade de se evadir porque não se perde um amigo todos os dias.

           Dos dois copos que colocou lado a lado, apenas um mereceu o conhaque que tinha esperado pelo estímulo certo. Luís, na abertura das Danças Polovetsianas, decidiu estrear um caderno de apontamentos de capa em pele. O traço da escrita foi-se alterando à medida que a garrafa se esvaziava, assinalando ideias vagas, motes para futuras crónicas. Se não havia cerimónia de encomendação, o Toninho teria direito a uma carta, não importava se a lia ou não porque as palavras da praxe também não as teria ouvido. Era a “Carta para um Amigo em Viagem” que Luís foi redigindo, e mais, e mais.

           Terminava assim: “Quando regressares não venhas no tempo das folhas caídas. Vem ver as camélias na cidade, provar o perfume da charneca, colher uma estrela na baixa-mar, escutar o chamamento dos rouxinóis nas ramadas das tílias. E traz contigo os estrangeiros que digam como são as catedrais que construíram, que cantem as canções dos avós, para se sentarem à mesa onde o pão se divide e os cálices se levantam. Não demores, vem logo que se faça dia e não esqueças como se dizem as cores da luz, pelo caminho colhe frutos nos pomares e aceita os favos que os pastores te ofereçam. As fontes que debruam a vereda serão generosas e a cama nova dos palheiros dará descanso. Quando estiveres perto, os homens hão-de reconhecer o brilho do teu olhar e a cadência dos teus passos. Não peças licença, à chegada, tira a seta do carcás, aponta, e no céu, se as houver, as nuvens darão lugar à claridade que descerá sobre todos nós. Quando regressares vem no tempo da esperança.”

           Quando adormeceu, já o braço do pick-up tinha recolhido.

           Ao quarto dia, a Senhora Francelina entrou em casa alegre e bem-disposta. Vinha a cantarolar em surdina quando deu com Luís afundado no sofá. Ao dar pela presença dela, espreguiçou-se e tentou explicar o que já era visível com os copos junto a ele.

           - Já vi que teve ontem companhia. Fez bem.

           A mentira ou a omissão, que são aparentadas, não faziam parte da convivência dele, muito menos com a Senhora Francelina.

           - Que esteja em paz. É a minha oração. – Foi o único comentário da mulher que tinha esfriado a alegria matinal.

           Nos dias anteriores Luís tinha evitado as notícias. Apanhava por alto uma aqui, outra ali, o bastante para concluir que tentar informar-se era malhar em ferro frio. Foi ter com Francelina que estendia umas toalhas e ganhou coragem para falar de algo que tinha sido tabu entre eles até então.

           - Ontem, apesar de ter bebido, pensei no Toninho e em como temos estado desprevenidos. É certo que não convivemos depois do alerta, mas na última noite em que estive com ele posso não ter evitado a proximidade que a prudência proíbe. Não nos foi exigido, contudo nós dois temos o dever de nos apresentarmos para sermos testados.

           - O menino só agora mo diz? Isso já eu pensei. Eu tenho família, acredite que sempre soube distinguir o trabalho da casa. Saiba como devemos proceder, talvez nos façam o exame aqui. No mercado um senhor comentou que uns cientistas de um país, não percebi o nome, afirmam terem a vacina quase pronta. Passou ontem na televisão.

           - Falta o quase.

           - E até ao lavar dos cestos é vindima. Veja as notícias, deixe-se de pensar na morte da bezerra.

           - Teve graça, sim senhor. A Francelina sabe da origem dessa expressão?

           - É nossa, está visto.

           - Não só. Há quem defenda que é da tradição hebraica.

           A fronteira entre o sonho e o pragmatismo não era um obstáculo. Luís tinha espaço, tempo, vocação para pisar ambos os territórios a que pertenciam. O dom de estar tão à vontade na sua solitude e com os seus efeitos, como na resolução dos problemas na gestão da vida cidadã, era o segredo da armadura com a qual investia contra ansiedades e armadilhas, inimigos camuflados do exército chamado progresso. Estava dito e assim seria: numa simples conversa com quem de direito, ficou decidido que em vinte e quatro horas lhes fariam o exame.

           A Senhora Gracinda prometeu-lhe aparecer bem cedo. Luís seguiu o conselho dela e ligou o aparelho. Correu as estações sem uma lógica qualquer, ou com a do instinto. Viu, e reviu as estatísticas, as entrevistas, os avisos, as imagens dos operários na frente e daqueles sem trabalho, os milhões perdidos e investidos, as mensagens de ânimo, as promessas, as previsões, o luto… e o resto do mundo. O resto do mundo fê-lo pensar no tempo que estiveram adormecidos, ele e a Humanidade que se escapara de dentro de uma história que já fora ficção e tomara o lugar da realidade. Sobreveio um sentimento de alívio ao olhar no redor tranquilo do bairro, de culpa por ter uma paz da qual não estava convicto ser digno. A Senhora Gracinda sabia do que falava quando o desafiara a ver as notícias. Rememorou os últimos dias e fez o exercício do qual falara ao Manuel da Gracinda: o que devia ou não pesar na balança, desta vez os seus actos. Não tinha soluções para os males que afligiam os homens, nem dado provas heroicas, tinha-se limitado a não contribuir para o mal dos semelhantes.

           Dedicou o serão a preparar a casa para a visita agendada. Como era hábito, deu as sementes ao pintassilgo e programou o despertador uma hora mais cedo.

           O clarão nascente do céu azul fazia adivinhar um dia limpo. Não corria a mínima aragem. Do quintal, onde dois gatos vadios já brincavam entre os arbustos, distinguia-se a canto vivo dos passarinhos. Luís já tinha na agenda uma surpresa para a Senhora Francelina, não como recompensa. Era uma prova simples do reconhecimento pela amizade mais valiosa que o trabalho doméstico, ela que, sem o dizer, cuidava que o menino, como gostava de tratar, fosse feliz. Honrava a confiança que a mãe dele lhe depositara, uma espécie de testamento de alguém que ficava na sombra, estando presente. Luís preparou para ambos um pequeno-almoço como podia: o pão para torrar, a geleia, umas bolachas, o café com leite para aquecer na altura. Era um dia especial em que poderiam, ou não, sacudir o peso das dúvidas. E foi vestir uma roupa lavada antes que ela metesse a chave à porta.

           Luís correu a janela da marquise para provar o ar cálido da manhã. Não havia muito que ver, o arvoredo, as janelas das torres que ladeavam a fronteira do bairro, as três moradias geminadas de lá do logradouro. Algo lhe chamou a atenção: uma das casas defronte, há muito desabitada, tinha uma das janelas com as portadas abertas. Fixou-a enquanto tentava perceber sinal de vida vindo donde era improvável. Até ser perceptível uma silhueta por trás da cortina, imóvel, que parecia olhá-lo num indefinível cumprimento. A cortina afastou-se, pela mão da aparição, e um rosto feminino de criança loira sorriu para Luís. Durou poucos segundos até a cortina baixar, e nada mais aconteceu.

           Perturbado com o sucedido, Luís recolheu-se e vagueou pela casa. Tudo tinha uma explicação racional, o difícil era descobri-la. E o tempo passou. Quando a Senhora Francelina lhe deu o bom-dia varreu-se a inquietação. Antes de se sentarem à mesa, Luís espreitou a casa vizinha: as portadas estavam fechadas.

          LV