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Luís Vendeirinho

I ENCONTRO “COMUNITARISMO, LETRAS E NATUREZA” GERÊS, 27 DE SETEMBRO DE 2014 COMUNICAÇÃO

      Tão relevante como os motivos que aqui nos trazem será o facto de aqui nos encontrarmos, para nos podermos dedicar a algumas reflexões dentro das balizas do comunitarismo, das letras e da natureza. Por vezes acontece, quando somos chamados a conversar sobre um tema, cairmos na tentação de tentar colocar dentro dos nossos discursos elementos alheios ao essencial, e assim desviarmos a nossa atenção de quanto possa importar ou acrescentar valor e originalidade a um tempo escasso. E faço um parêntesis para sublinhar que será essa volatilidade do tempo que não raro justifica muita da literatura, das letras que nos permitem iludir a ditadura do efémero e deixar uma marca, um testemunho de um presente-fantasma para a posteridade.

           Num primeiro momento destas poucas palavras, vem à colação a importância do significado de comunidade e do sentido para em comum resgatarmos alegria das rotinas e proventos do nosso saber. A humanidade, a comunidade humana, de alguma forma colonizadora deste mundo natural onde coabita, transformando do chão a realidade de cada época, esta humanidade, dizia, foi desde sempre confrontada com factores da entropia, da desordem e do declínio, que, por absurdo que pareça, lhe têm permitido sobreviver e readaptar-se. As catástrofes naturais, as guerras, a fome, a doença, a exploração do trabalho, até a própria desumanização de alguns comportamentos que a ciência promove com a sua aliada tecnologia, nos dias de hoje, são factores de degradação, mais ou menos perenes, que atiçam o engenho dos homens e fazem meditar acerca doutras concepções de uma sociedade saudável, inteligente, culta e solidária. São vários os exemplos de civilizações, de comunidades, de etnias, de culturas que se extinguiram. Porém, não terão elas apenas adormecido no tempo da história? Não devemos nós, em nome do respeito que esse legado comum nos merece, tentar colher da memória e dos testamentos doutros saberes quanto nos seja proveitoso para a nossa própria sobrevivência? É um risco evidente dar o progresso por adquirido e o futuro como exemplo de bem-estar e justiça, sobretudo quando somos confrontados com esta globalização. Tal como foi idealizada e tal como foi construída, a globalização da economia e da finança é um tiro que os seus mentores e os seus defensores deram no pé. Basta olharmos e basta vermos.

           A natureza é pródiga em exemplos de como toda a obra se manifesta, na sua singularidade e nos seus frutos: de raiz. Assim deve ser com a construção dos laços que a pessoa estabelece com o seu semelhante: a partir do interesse comum para harmonia do todo social. E é dessa natureza que se alimenta a causa comunitária, do provento que a natureza propicia, seja o alimento, seja o recurso mineral, seja a fonte de energia que a sociedade contemporânea consome para seu conforto e para a concretização dos seus projectos tecnológicos. Esta relação privilegiada entre pessoas e natureza, porém, exige algo que se tem vindo a degradar na vertigem do lucro imediato e na ilusão da liberdade: a voz da pessoa e do colectivo que a representa. O exercício da cidadania exige tanto de conhecimento das questões sociais como da faculdade insubstituível de dialogar. De raiz, todo o indivíduo se faz representar pelo semelhante que consigo divide a mesma condição, iguais horizontes, literalmente. A fronteira onde se confina o nosso quotidiano é aquela onde temos o dever e o direito de decidir o interesse colectivo. Os factores da entropia, do declínio que referi, alguns deles serão inevitáveis, cíclicos, mas não devem ser argumento para nos alhearmos do dever de contribuirmos para que toda a comunidade possa usufruir dos bens que lhe são inerentes.

           Faz-se a comparação do colectivo social com um agregado de ilhas, com as suas pontes e as suas fronteiras. Contudo, tenho uma percepção desse agregado, nos dias de hoje, como sendo bolhas que têm relações asfixiadas com o todo, que intersectam na relação estabelecida entre si elementos comuns, que tangem a sua realidade sem a darem a conhecer com profundidade. Será por osmose da identidade cultural das comunidades, sem claudicação ante influências estranhas, nem pudor face ao desconhecido, que se afirma esse animal tão raro chamado de cultura. Na anatomia desse ser, temido pelos poderes que sugam da terra para proveito de poucos, há uma articulação do todo social quer se faz pela inventiva e pelo conhecimento da alma dos homens: a literatura. Não será a única, nem a derradeira, mas, como ficou dito, será das mais duradouras como impressão digital, se é permitido dizer assim, como ADN do mundo contemporâneo. A literatura cujos autores não podem eximir-se da responsabilidade de procurar, e encontrar respostas para o bem comum. Talvez por esta dificuldade em harmonizar a criatividade com o diálogo, em usarmos da inventiva para regular relações humanas, talvez por isso haja tanto por fazer. A visão contemplativa da natureza inspiradora, nas artes como noutros ofícios, deve ir mais além e beber das regras dessa natureza, conhecendo-lhe outros segredos para bem do progresso da humanidade, sem a ferir, com humildade.

           O único tempo para edificarmos cada uma das nossas comunidades conforme a felicidade de todos chama-se hoje. A adversidade que espera não é razão suficiente para nos demitirmos do respeito mútuo, a fome do amanhã será o pão que não redistribuirmos hoje, a doença que espreita será o trabalho que não nos propusermos, a injustiça que possa ser cometida será a voz que calarmos agora. Este mundo-berço que temos entre mãos pede um pouco mais de nós, que tanto exigimos dele.

LV