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Luís Vendeirinho

O Autor

DE QUEM É A MINHA RUA?


E eu, que começara por ouvir acerca de pastores no Presépio, já distinguia, na madrugada, o tinir dos guizos, e assomava à janela embebido em curiosidade e fascínio. Os dias, mais do que datados, tinham nas horas a conformação com a sorte, como a da leiteira com as suas medidas de porta em porta, do jornaleiro que, num arremesso mágico, punha novidades dentro das varandas, do amolador que fazia uma escala da sua música singular, dos moços que traziam ao ombro as bilhas de água. A esmola pedia-se porta a porta, havia noites em que, trazidos pelo vento, nos chegavam os apitos dos barcos no Tejo, ou sobre a cumeeira se ia desenhando a luz do farol da Portela, havia boatos, carvoarias, a carroça à procura dos cães vadios, mães enlutadas a caminho da missa e, de vez em quando, uma carreta funerária que deixava mais pobre a intriga plantada nas esquinas. Nos jardins, a garotada jogava à bola e, mais golo menos canelada, lá iam depois uns confortar a fome nas suas barracas da Quinta da Montanha e outros arrumar as pastas com os cadernos da escola. A taberna virou agência de viagens, a peixaria deu lugar ao pronto-a-vestir, na padaria o papo-seco resignou ante a concorrência dos duchesses, foi tempo de o petróleo a litro na drogaria se evaporar, agora que nesses metros-quadrados há penhores de ouro e uma réstia de discrição. Pioneiros do espectáculo, os robertos vinham a cena sob a arcada de um prédio, à noite, no café de privilégio via-se televisão a troco de um galão e uma torrada, até que o resto do mundo invadiu as casas, e nos telhados cresceram antenas como símbolos de um poder oculto e de uma liberdade adiada. Hoje já temos semáforos onde os casebres foram destronados pela gasolineira, nos cacifos do correio a publicidade tomou o lugar das cartas de amor, nos logradouros resistem destroços das capoeiras, os ninhos das andorinhas são inúteis dentro das marquises. Os filhos desta rua colecionam memórias, também as do Apeadeiro e do sinal pare-escute-olhe, memórias onde cabem uma vida e a percepção de que, afinal, não sendo de ninguém, esta rua é de todos. Sobretudo daqueles que não ignoram nem os nomes, nem os rostos, nem as histórias dos responsáveis por lhe dar vida.


Luís Vendeirinho