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Luís Vendeirinho

VELHICE, VELHOS E VELHARIAS

VELHICE, VELHOS E VELHARIAS

Ou sou embalsamado e acabo num museu, ou as minhas cinzas dão para a tinta de um retrato adoptado por um antiquário para leilão. Não permito que os jogos da meninice, os exageros da juventude, as lições da maioridade e a sabedoria da obra feita sejam varridos por uma faxineira do lar da terceira idade. Se esse for o destino, quero um onde haja biblioteca, uma biblioteca de mil pisos quase até ao céu, onde tenha música ao vivo, música dos génios ressuscitados com piano, violinos e violoncelos, trompas e clarinetes para eu reger com uma batuta que pode ser um charuto cubano de quarenta centímetros, apagado, mas cubano. E exijo muitas mulheres que não precisa serem jovens, nem bonitas, nem promessa do Paraíso, mulheres sem bata branca que, no lugar de trazerem o tabuleiro do pequeno-almoço, me leiam poesia e abram a cortina do quarto para eu ver o ninho de uma águia na falésia e a cascata a cair sobre o meu corpo, sobre o seu reflexo na imaginação. Se for caso disso, a gente, toda a gente de quem me lembre, será convidada nas datas especiais, com banquete, licores, gargalhada, tanta gargalhada que possa ser incómoda para quem tente conter as lágrimas. Depois, quando a noite cair, quero anjos, brancos, negros, vermelhos, amarelos, albinos se for possível, e estrelas a decorar o tapete, e a voz dos meus pais e doutros amores para dizerem onde é o Norte e explicarem como se dizem as palavras. Os museus de memórias têm poucas visitas, sem catálogo, abertos vinte e quatro horas de paredes nuas, de portas viradas para a noite. Os antiquários têm as sobras da história, sem dono, de valor que só o olhar entende. No dia do assalto ponham um anúncio para o ladrão de horas ser capturado.

LV