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Luís Vendeirinho

UM CAIXEIRO-VIAJANTE NO CHIADO

UM CAIXEIRO-VIAJANTE NO CHIADO

Da Portugal á Lello, da Lello à Sá da Costa e dali à Bertrand. De pasta na mão, avisado de guias de entrega e com um enorme sonho preso aos passos, sem ambição, crente, alegre na tarde soalheira a dar ao mundo versos com o carimbo da verdade, das letras saídas da penumbra da casa ao afrontar a sorte enganada. Foi tempo de confiar, ao balcão confiavam e não faziam perguntas, eu confiava e não exigia, nas ruas da cidade frutificava a confiança entre desconhecidos, a esperança. Vieram, pela calada, assombrações, nuvens negras sobre a casa e as folhas tingidas pelos versos foram amarelecendo, invadidas pelo bolor, esquecidas como a alegria do caixeiro-viajante. Passavam à história as montras cheias dos títulos de um desconhecido, as portas abertas por gente nobre que confiava, as contas certas, magras, mas plenas da honestidade que sobrava em tempos já de mudança. Se eu pudesse resgatar do passado aquele genuíno ser, e estar e encontrar no outro abrigo, se, mas foi dado ao chão das letras um adubo amargo, uma perversão da arte que sabe a traição, a esconjuro duma liberdade efémera cujos responsáveis foram a infantaria dos ideais entretanto perdidos. Aonde? Em nome de quê? A resposta está num cofre cujo segredo são números, doirados, mas números. Um dia destes vou tomar, lá onde ambos peregrinámos, um café com o Fernando. Sei que do sarcófago de bronze, ou doutra liga, ele nada me dirá, mas a sua companhia será mais fiel que a da gente presa à carne e aos ditames da moda. Ámen. 

LV