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Luís Vendeirinho

RIO SAGRADO (excerto de um inédito)

RIO SAGRADO (excerto de um inédito)

Um guarda-rios esvoaçava por perto, exibindo o azul das penas entre as sombras e os reflexos da água que ia cantando, solene e mansa, pelos meandros da pedra rosada. Apenas a dança dos alfaiates maculava a superfície do rio, um falcão-peregrino parecia imóvel contra o céu, uma salamandra dormitava sobre um tufo de ervas, a cor da vegetação, nas margens, prometia uma Primavera, cálida, em que as manhãs se insinuavam bem cedo e as tardes deixavam um rasto alaranjado à hora em que os pássaros se silenciam. O mais que se pudesse acrescentar à beleza daquele recanto só a presença humana tornava possível, e a vista sobre a ponte centenária, assente sobre duas vigas de madeiro, perdia-se nos meandros do bosque e no fascínio da natureza virgem.

Talvez porque o simbolismo do rio, em si mesmo, fosse demasiado evidente, falava-se da ponte, e da barca e do barqueiro.


“E se eu te perguntar…”

“Na ponte és tu o barqueiro. Na barca tens a companhia do barqueiro, não estás sozinho, e pode ser que ele te diga para escutares o rio, como ele aprendeu a ouvir. Na barca podes regressar, como todos os que evitam fazer o caminho de volta pela ponte, mas o rio é propício à imaginação, apesar da companhia do barqueiro. Quando vens de novo pela ponte, ela é como um exercício da tua consciência, só então dás pela presença da ponte, e por ti que te reencontras. No rio inclinas-te e vês a mesma imagem do teu rosto. Isto quando o rio não vem turbulento, como quando não te permite entrar na barca, nem se deixa ouvir.”

“É curioso, sempre senti também que estas águas falam connosco.”

“Eu tenho dúvidas. Talvez ele apenas fale, enquanto uns o ouvem e outros o ignoram. Podemos redimir-nos, noutra margem, da rebeldia, por exemplo. Falo que a ponte é atravessada pela primeira vez, de ida e de volta. Lembra-te que não és o único a conhecê-la, que ela tem uma missão, e será assim que faz amigos. As pontes não fazem inimizades.”

“Se fazemos parte da multidão somos como um guerreiro, sem armas, que luta contra todos, que diz o que se quer que ele diga, sempre a batalhar para convencer quem haja para dar a bênção aos seus propósitos. Uns cansam mais depressa, e fazem alianças, outros tantos perseguem o sítio onde tenham um pouco de reclusão, a casa entre as casas da multidão. E fazem mais que a simples tactica da adaptação: sonham. Aqui o sonho não custa, é tão natural e inspirador. Longe da malfadada apologia da Natureza que, pior que ficar guardada nos compêndios, é hipocrisia, hipocrisia de alguns para mal da casa comum. Não quero endeusar os elementos ou a Terra, mas não ouso ser responsável pelas cicatrizes que os fumos e o desperdício vão cavando. A multidão enfurece-se, louva os milagres da inteligência que transforma um filão numa pilha de latas de sopa, e desvia os olhos do inferno, fecha a mão ao sofrimento alheio. Bendita condição a nossa, que sofremos na nossa impotência, porque há uma humanidade para atravessar aquela ponte.”


Invisível, num ramo do carvalhal, um esquilo trincava uma bolota. Havia ninhos onde dos pequenos ovos eclodiam as criaturas. Um guarda-florestal, profissão de uma vida, acenou desde o telheiro onde rachava lenha. A mulher, disfarçada entre os arbustos, alimentava o viveiro. Os dois homens afastavam-se, já na curva do caminho.

LV