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Luís Vendeirinho

REPTO

REPTO

Há um tempo para nós, sem data

Há um dia para nós, sem hora

Num sítio qualquer, há a urgência

Dos passos e a quietude dos astros

Que nos dedicam uma breve letra

Fazendo dos nomes um dicionário,

E há as folhas deste Outono adiado

E as intempéries do calendário

E a fragrância dos corpos enleados

No leito onde ressurgem degelos,

Há a monótona cadência dos rituais

Entranhados de frio e suores matinais,

Há mais que nossos corpos petrificados

Num só beijo, num só olhar, na pele

Entregue a carícias e a vendavais

Que sopram donde há silêncios,

Vindos nós ambos, nós todos a soprar,

Na noite feita das rotinas celestiais,

Preces, louvores, amores, incêndios

Que nos consomem a alma de amar,

Há tanto para dizer e para calar

Que não há nem tempo, nem data,

Nem sítio que calem das dores

E dos humanos prazeres as confissões,

E nem a ciência desvenda este milagre,

Os segredos que em nós se escondem

Sempre que do vinho se faz vinagre

E do chão degenerado se faz o mel,

De flor em flor, de sol em sol,

Há um beijo em que nossa humanidade

Prova da terra iluminada seu sabor.

E enfim te digo: Poema-me minha vida,

Senão serei eu a roubar de ti a poesia,

Como do mar se inventa a maresia

E do firmamento a luz do dia,

Poema-me em jeito de alegria,

Que me bastam estas letras de lamento… 


LV (in Poema-me, Lua de Marfim, 2015)