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Luís Vendeirinho

ONTEM À TARDE (POEMA)

ONTEM À TARDE (POEMA)

Ontem à tarde, enquanto chovia,

A chuva beijava a vidraça da nossa janela,

E tu, sentada no recanto da sala,

Pregavas um botão de fantasia

Sobre o pano da camisa de flanela,

Ontem, ao fim da tarde,

Enquanto com uma agulha

Que pelos teus dedos cosia,

Me pregavas o botão da minha camisa verde,

De flanela,

Teu olhar sorria, e via para além

Da vidraça da janela, onde a chuva batia

E beijava o olhar que ali morria,

Ontem, enquanto teu olhar sorria

E teus dedos seguravam uma agulha,

A chuva batia, insistia e tu sorrias com ela,

Ontem, nada de mal aconteceu,

Apenas um gesto com a agulha que de súbito te feriu,

E teu olhar, ainda assim, sorria,

Tingida a flanela,

Enquanto, beijando a vidraça,

A chuva caía, escorria

E eu sorria contigo e com a chuva

Que caía vinda do céu…

LV