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Luís Vendeirinho

O TEMPO (poema)

O TEMPO (poema)

O tempo,        

Essa recordação que de tão erma se faz em saudade,

Essa privação da realidade apenas presa ao fio da memória,

Esse grito por um instante a derramar-se em eternidade,

Esse sorriso do luar a lembrar a palidez de toda a glória,

Essa inocência que insiste em nos dar a mão,

Esse abraço entristecido a iluminar cada ilusão,

Essa miragem de luz num olhar de felicidade,

Esse caminho em que caminhando caminhamos sem chão,


Que tem ele para nos privar da sua imagem?


Um gesto, uma palavra, uma oferenda, uma confissão,

Uma paisagem, uma tormenta, uma quietude, um momento de solidão,

Um galope sobre os abismos, a vertigem, o céu e a imensidão,

Rasgos de vontade, quimeras, resignação,

Os passos que à porta de casa

Nos devolvem afectos, sedentos, embriagados,

A luz acesa,

A manhã que começa

Sem que dela nos dêmos conta

Indo devagar, em silêncio e tristes

Na nossa celebração

LV