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Luís Vendeirinho

O MUNDO DA LUA

O MUNDO DA LUA

Não sei se serão sonho ou magia, vindos desde os céus em jeito de luar. Sei apenas dessa eterna melancolia, dessa luz a repousar nos ebúrneos mares, que desenha sombras no colo do arvoredo como letras que se despenham em segredo, no pasmo e na fome de desflorar páginas seculares. Não sei, que nunca houve um olhar, nocturno e fascinado, que tenha contemplado as feridas de nossa estrela mãe com tamanha tranquilidade, com tão contida mansidão que chega a ser uma terna ilusão, para da noite fazer dia e do universo recanto sem mais que estrelas de prata e reflexos de nossa solidão. Os mais serão caçadores furtivos, poetas em demanda de respostas, cientistas, mendigos pela calada das madrugadas, abrigos na humana escuridão, janelas tristes bem cerradas, pálidas pedras, nos montes por onde correm e se abrigam águas de rios e ribeiros inquietas e em segredo iluminadas. E toda nossa vida é como uma bênção vinda do firmamento, é uma lua que, não tendo em si mesma o fogo das emoções, guardadas para as paixões, se revela no ápice de um intenso momento pela mão de uma carícia, de uma promessa de amor tão rara que se confunde com a humana malícia. É no mundo onde habitam enigmas e o sopro dos nevoeiros trazidos pelo breu que se revela o milagre dessa luz, dessa oferenda do céu, num gesto ora encoberto, ora magnificente, ora desenhado a mando deste chão que serpenteia no éter, invisível e indolente. Desde esta fronteira, que vai sendo beijada pelas marés, se aventuram marinheiros em seu convés, olhando mais além, cada qual à sua maneira, cada um transpirando aventuras e desejos, inebriados de histórias de monstros, de sereias prometidas para seus salgados beijos, vindas nas ondas espumando a brancura dos luares. Bem lá ao alto, onde ninguém alcança, se elevam os olhares, e as palavras dos poetas atiram, do íntimo de seu ser, versos como os arcos de Apolo atiram suas setas. Quando se faz manhã afogam-se os mistérios, acorda a luz do dia em seu poder, adormecem as fantasias, os devaneios e as profecias, sem que alguém suspeite desse deserto entregue a sua sorte, árido e frio, como uma jóia que promete, no ocaso, ressuscitar da morte. Dando, na mudez dos astros, cor aos sentimentos e vento aos panos da poesia, atados entre si com se ata a noite ao dia.

LV