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Luís Vendeirinho

O FATO AMARROTADO (conto)

O FATO AMARROTADO (conto)

Era o melhor fato que tinha guardado. A última vez que a mulher o engomara fora no baptizado do filho, com o esmero dos gestos que naquele serão voltava a dedicar aos punhos e à gola, bem vincados, passando a goma com o ferro a carvão enquanto cantarolava na penumbra do quarto. “Amanhã não te irão reconhecer. Os botins já estão a brilhar”. E José dizia que sim em silêncio, paredes-meias a limpar o fole da concertina, ao calor do fogo onde a sopa cozia e com os reflexos doirados das chamas a iluminarem-lhe o sorriso. Afinal não era todos os dias que o convidavam para alegrar uma festa no povoado vizinho, nem fora preciso o Barriga de Alcatrão insistir quando lhe pedira para mostrar os dotes de músico que cultivava desde garoto. A taberna iria estar a romper pelas costuras, com promessas de vinho e de muita alegria, e ser chamado, ele estrangeiro nas fraldas da serra, a animar as antigas canções dos aldeãos, merecera uma oração de agradecimento no altar onde os santinhos zelavam pela protecção dos pobres e a Virgem abençoava os sonhos dos homens. José e a sua concertina haveriam de ficar na memória da aldeia por muitos anos, pensava para consigo próprio, regozijando de antemão. Naquela manhã a tina de carvalho fumegava sob a espuma, e José lavava os pés com esmero, já com a camisa de linho dependurada numa cadeira e a imaginação saindo pela portada entreaberta, deixando entrar a réstia de um sol de inverno. Antes de se pôr ao caminho, ia o dia avançado, beijou a mulher nos lábios – coisa rara – e o garoto na testa, e ambos ficaram a ver a sombra da criatura desaparecer na volta do pinhal, com a concertina pela mão, devagar. “O paizinho está todo contente. Não está?” Havia um luar tímido a despontar na cumeada, as primeiras luzes do povoado tremelicavam à distância. Enquanto José subia a calçada de xisto, passou por ele um canito, que lhe farejou as canelas, e que ele enxotou receoso da sua figura maculada. Seria aquela a porta, sem dúvida, olhou em redor, com as rugas da testa tão fundas como as dobras da concertina e gaguejou. “Ó da casa!” Nada. Até que alguém assomou a uma janela, bem perto, uma avozinha de voz rouca. “Que quer vossemecê, homem?” José, perdido na noite que invadira as ruas, ainda ousou. “O Barriga de Alcatrão não está em casa?” Não estava. Tinha ido com uns amigos algures, festejar o Carnaval, a crer na bebedeira que levavam no lombo. José voltava pelo caminho que o levara, com os botins sujos e o suor na camisa de linho, pelo breu dos montes a matutar nos rostos da família que o aguardava. Vencido, encostou-se ao muro, pegou na concertina e começou a tocar. Lá longe um cão uivou.

LV