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Luís Vendeirinho

O ESCRITOR POBRE E O ESCRITOR RICO (Conto de Natal)

O ESCRITOR POBRE E O ESCRITOR RICO (Conto de Natal)

Era uma vez dois amigos unidos pelo gosto que tinham pelas letras: o escritor pobre e o escritor rico. E cada um deles tinha também um filho, de que cuidavam como lhes permitiam os seus proventos. O escritor rico era conhecido por ter uma caneta de tinta de ouro, cujo manejo lhe granjeava a fama do seu talento e fazia ser respeitado por todos. Era muito viajado, conhecia meio mundo por conta das palavras doiradas que tinham a virtude de retratar ambientes exóticos, que lhe permitiam os relatos de terras distantes e o cultivo de personagens das culturas mais longínquas. E os seus livros chegavam aos leitores que, sem suspeitarem da magia da caneta de tinta de ouro, lhe faziam o elogio da sua arte por todo o lado. Enquanto viajava, ao sabor das homenagens que lhe eram dedicadas, o filho ficava, à distância, embevecido pelo talento que o pai via reconhecido onde quer que fosse. O escritor pobre desde sempre escrevera com um lápis, pelo qual nutria o maior afecto. Mas limitava-se a contar as histórias dos que lhe estavam próximos, entregando-se com o seu lápis a imaginar o que lhes ia na alma, sempre a sonhar com esse mundo distante e inacessível. E os poucos que sabiam do facto de ter a ousadia de escrever com um simples lápis não criam merecerem as suas histórias crédito, pela razão de não haver notícia de que fosse conhecido onde era o lugar dos verdadeiros escritores. O seu filho, esse, ficava ao seu lado a vê-lo escrever enquanto acreditava que tinha o pai mais habilidoso do universo.

Até que chegou mais uma vez o Natal. Os dois amigos, como era hábito, tinham sempre uma prenda para cada um dos filhos. O escritor rico tinha sempre dificuldade em escolher a prenda que pudesse dar alegria ao seu filho. Depois de muito pensar, decidiu que naquele Natal ia surpreendê-lo. E ofereceu ao filho um livro que, por acaso, tinha sido escrito por um outro escritor, pobre. Entre muita festa, ao revelar das prendas, o filho agradeceu e foi colocar o livro num canto. E o livro nunca chegou a ser lido pelo filho do escritor rico.

O escritor pobre durante muito tempo foi amealhando para uma prenda que o filho não esquecesse. E, naquele Natal, revelou-se então de uma simples caixa, com um laço colorido, a surpresa do filho. O escritor pobre ofereceu-lhe, como recordação e promessa, uma caneta de tinta de ouro. Para que um dia, se viesse a escrever como o pai, não o tivesse de fazer com o simples lápis que tanto amor também sabia derramar no papel.

LV