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Luís Vendeirinho

O BURRO (conto de Natal)

O BURRO (conto de Natal)

Maria, José e uma criança de berço, que ambos cuidavam, viviam numa terra pobre, conhecida nos arrabaldes pelas colheitas generosas que o chão dos senhores dava e pela bonomia da sua gente. Maria bordava os seus panos finos e zelava pela casa e pelas flores do seu jardim. José inspirava-se na beleza da natureza para pintar as suas telas, que sempre oferecera aos vizinhos, e, logo que era chamado, dava os préstimos a todos que dele precisavam, sempre com o sorriso que a magreza da vida não turvava. Houvera um dia em que José foi falar com um dos fariseus do burgo, para que lhe comprasse uma das suas pinturas, e o fariseu fechou-lhe a porta. Houvera um outro em que Maria pediu à mulher de um outro fariseu ajuda em troca do seu mais apurado bordado, e a mulher negou-se a tanto. Até que o povo, em surdina, começou a comentar que o casal tinha o pão na mesa por conta das esmolas dos fariseus. Entretanto, e por virtude do Natal, os fariseus reuniram-se e foram unânimes na decisão de distribuírem prendas pelas famílias e fazerem a habitual colecta em favor dos mais pobres. Mandaram assim alguns moços com o recado, de porta em porta, dando vivas aos fariseus, prometendo as prendas e recolhendo as dádivas daqueles a quem os fariseus achavam com posses. Maria deu-lhes uma moeda e José outro tanto. Quando chegou a noite de Natal, sobre todas as casas desceu a tranquilidade dos céus. Ao lusco-fusco, e através da janela, podia ver-se Maria debruçada a amassar o último trigo que havia na despensa, e levá-lo ao forno para a cozedura de um bolo de frutos. José dava os derradeiros retoques num quadro, com a pouca tinta que guardara para uma ocasião especial. A criança, adormecida no aconchego da alcofa, já se tinha saciado no seio materno. Caiu a noite. Maria desdobrou uma toalha de linho e sobre a mesa colocou o doce ainda quente, dois copos e o único licor que havia. Depois acendeu dois candeeiros e protegeu as chamas com as chaminés imaculadas, a brilhar. José encostou a tela fresca no cavalete, e pô-lo à luz do candeeiro. Maria traçou o xaile pelo ombro e pegou, num gesto gentil, a alcofa. Desceram a escada em silêncio e José abriu o presépio para trazer o burro à penumbra do caminho. Ajudou Maria a subir para cima do animal, entregou-lhe de novo a criança nos braços, pegou na rédea e partiram. Ao frio da geada, ficou a casa, iluminada, com a ceia posta e a porta aberta para quem viesse.

LV