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Luís Vendeirinho

O AUTOCARRO DAS DEZANOVE (Crónica)

O AUTOCARRO DAS DEZANOVE (Crónica)

Eramos seis, à luz mortiça do candeeiro. O sem-abrigo, com o esqueleto embrulhado na pele macilenta e enrugada, vasculhava nos sacos algum tesouro. Dos quatro garotos, um deles, o mais franzino, via a vida por trás de uns óculos redondos, e ia-se deixando embalar na brincadeira dos amigos. O mais encorpado de obesidade, loirito, respondia aos pontapés dos demais na mesma moeda, e aos insultos, enquanto disputavam um telemóvel: “faz um directo no Instagram”, dizia um deles. Não me pareceu que a palavra escola fizesse parte do léxico de qualquer um deles. Quando se abriu a porta do autocarro, fui a única alma a empunhar o passe, eu que não aderira nem ao Instagram, nem à delinquência precoce na minha infância, abrigado no livre arbítrio com que fui abençoado. O caixa-de-óculos, se tivesse sorte, pensei eu, talvez pudesse vir a trocar as voltas à sorte, talvez virasse cientista ou mangas-de-alpaca. Os demais contagiaram-me uma tristeza que me foi envolvendo ao longo do caminho. Entrou um cego noutra paragem, uma mãe que dizia palavrões enquanto conversava com a filha, entraram muitos velhos, mulheres rudes que iam trabalhar nas limpezas, imigrantes, gente aliciada pelos publicitários, pelos candidatos da política, escumalha que ria sobre as anedotas que a miséria humana inventa. E dei comigo a matutar na utilidade da liberdade e da democracia, se fazia sentido a minha honestidade como cidadão, até que o meu lugar foi invadido pelo bafo de um peido anónimo. Foi quando, na minha solidão, olhei pela janela e vi o néon de uma sex shop, a estátua mal iluminada na praça, e o luar que vinha a despontar sobre a cumeeira. O autocarro das dezanove lançava, pelo escape, a culpa pelo aquecimento global, levava à boleia mistérios que eu resolvia na minha ignorância, era o palco onde a realidade se aplaudia e vaiava, o sítio ambulante que ludibriava mapas, era o sem-abrigo, os meninos que, sem o saberem, já iam a tribunal, os sonhos do cego, a fome das mulheres, o céu dos imigrantes, a malícia dos poderosos. Até que chegou o momento de eu os abandonar, prisioneiro daqueles escassos dez minutos, e saí. Na volta do resto do meu caminho, ainda olhei o cimo da rua, mas o autocarro já tinha dobrado a esquina. Gostei do cientista, possa a vida assim fazê-lo, como me soube bem provar um naco desse manjar chamado fome, da intimidade com um pedaço do povo.

LV