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Luís Vendeirinho

INFÂNCIA

INFÂNCIA

      Descem pelos lábios agarradas ao nome das coisas, as palavras. Como a tinta de uma tela, a conquista presa ao mastro da caravela, a areia fina que se esvai entre os dedos como pavio ardendo na coroa de uma vela. Dadas ao vento, à brisa, no imprevisto de um momento arrastam consigo a força do vendaval. Na transparência de uma fonte, da nascente, súbitas se fazem turvas em enxurrada. Preces, sentenças, abraços de promessas apertados em vã concórdia, a sua ausência é o mundo que fenece, agonia rasgada num fim de dia, doçura misteriosa apenas chamada de melancolia. Impotentes e tentadoras, envolvem os sentidos como o cetim em que escorrega todo o prazer e, diga o coração o que disser, inundam de emoção presas num grito e num gemer. Descem pelos lábios livres e simples, as palavras. E o silêncio, se adormecem, amarra ao cais nossa aventura, sopra na chama do fervor inesperado, e toda a eloquência se transfigura do brado no desalento. Por enquanto, são as palavras que não entendo, e as que em minha ingenuidade dizem muito do que pretendo, que voam bailando sobre quem amo e inspiram irrequietas de letras dadas à sorte do desengano.

LV