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Luís Vendeirinho

DUAS MALGAS VAZIAS (conto de Natal)

DUAS MALGAS VAZIAS (conto de Natal)

Sobre a toalha bordada da mesa, a mãe tinha colocado dois pratinhos de doce, coroados de pinhões e nozes. E duas malgas para a sopa que se preparava ao lume. A noite tinha caído nos montes, nas terras que suplicavam pela dádiva dos céus em jeito das chuvas que não caíam desde havia muito tempo. As arcas quase vazias das famílias prometiam jejuns, e todos ali oravam pela intercessão dos anjos e dos arcanjos para que do chão pudessem voltar a colher o pão dos seus dias. Eram dias de privação. O silêncio tinha invadido a aldeia, e das chaminés saíam os fumos que as ceias exalavam, misturados na neblina densa. Até que alguém deu sinal da sua presença com o batente da porta, e insistiu. O menino, entretido entre o perfume do caldo que se apurava na lareira e a magia da consoada, abriu a porta da casa. Eram apenas quatro crianças, envoltas no agasalho das suas mantas de lã, com um brilho nos olhares que a chama vinda da casa avivava. “ Eu sou o Marcos, e os meus irmãos Mateus, Lucas e João.” Pediam por um naco de pão, ou por um pouco de caldo que lhes consolasse a fome. E assim, do pote e a pedido do menino, se matou a fome das crianças. “Querem mais um pouco da nossa sopa?” À luz do olhar reticente da mãe, os quatro irmãos aqueceram por fim a alma e bendisseram a casa onde tinham encontrado o calor da noite. Conforme tinham aparecido, se foram pelo breu, felizes, deixando um rasto de mistério e o pote já sem o pão daquele Natal. Depois de provarem o que tinha sobrado da ceia, o doce de nozes e pinhões, a mãe e o menino recolheram-se no colo dos seus sonhos, confortados na memória desse gesto inesperado para que haviam sido chamados. Ao primeiro sinal do dia, algo estranho os despertou. Seria gente, seria apenas o vento? Era afinal uma bênção pela qual tanto tinham orado: caía uma chuva miúda, persistente, que molhava os quintais e prometia o renascer das fontes. Foi a melhor prenda que as gentes daquelas terras puderam suspeitar, que voltava a regar as hortas donde o alimento das famílias renascia. Nunca mais alguém pôde ver os quatro irmãos, mas, desde aquele dia, o menino nunca mais olhou a mesa da casa com a mesma naturalidade. Havia sempre um reflexo de reconhecimento no prato onde punham o pão, e uma luz de esperança no copo predestinado para o vinho. E a fome arredou-se das casas daquela gente.

LV