Loading

Luís Vendeirinho

DESERDADOS ATÉ À MEDULA

DESERDADOS ATÉ À MEDULA

Sob o efeito dos ansiolíticos ou afundados em neurolépticos, há vultos que ninguém vê que atiram beatas para o chão. Mal-educados e com prole, com perfil anorético numa página do INE, bêbedos por conta de vinte e três de IVA (uísque contrafeito, mas a vinte e três), moram à porta da casa com escritos e banheiro roubado em Carrara. Se a cerimónia pede, a gravata do avô, de nó mal atado, compõe um príncipe-de-gales puído e, se a cerimónia deixa, um par de botifarras come o chão como a sede esvazia dois litros de OH2. Nos intervalos das vinte e quatro, as cuecas no estendal cheiram a sabão, e não há quem veja, nem há quem fareje. A biblioteca tem marcadores, extratos dos bancos dobrados pela fúria, vincados em surdina, que assinalam as páginas, flores de plástico sobre os túmulos, e nas prateleiras desenham-se nomes sobre o pó do tempo. O pêndulo do relógio foi vencido pelo cansaço, a campainha da porta faz ding-dong quando o rei faz anos e a pizza chega a fumegar, o rádio diz se faz chuva ou faz sol entre o assobio. E saem beatas janela fora, entram aranhas pelas frestas, os dedos ainda têm vestígios de tinta azul, das provas dos nove e do arquivo de identificação. Num quadro de cortiça penduram-se as memórias das tragédias do bairro e recortes com selos de velhas cartas, no chão a cera é dada uma vez por mês, o frigorífico, depois de reparado, guarda um prato com o molho do pudim, lançam-se desafios para que os retratos respondam. Os ecos do silêncio entranham-se até à medula sem sinal de vida. A gaveta, bem fechada com duas voltas, esconde bilhetes por premiar, a mesa da cabeceira alumia pesadelos e há gritos como vómitos do estômago vazio. Bem-educados, os vultos que ninguém vê fumam beatas e engrossam inquéritos, de mãos lavadas e perfumes nos sovacos. Até à medula, até tão dentro da medula que chega a ser o coração da própria alma. Deus nos valha, que é obra impossível para os humanos mortais. E, se não valer, haja quem beba do resto do cálice.

LV