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Luís Vendeirinho

CRÓNICA DE UM RAPTO

CRÓNICA DE UM RAPTO

Dobrou a esquina, com os cascos forrados de veludo, na sombra do candeeiro fundido, e veio com um sorriso rasgado, degrau a degrau, prometer no regurgitar da cicuta que haveria de voltar. A valsa da debutante criatura, em rodopios e encantatórias melodias, começou por arrastar com ela a alegria, e cumpriu. Quando se consumava a segunda hora em que a luz dum olhar rompeu as trevas, a besta trouxe nas mãos mascaradas com seda uma grade enferrujada, um cadeado, rindo manhas numa redoma de espelhos, com os cascos forrados de veludo, e cortou o fio que tecia o amor. Prometeu com as unhas afiadas que haveria de voltar, e cumpriu. Na terceira hora, vinha com uma bandeja inundada de cristais, mais os das órbitas donde disparou a seta fervente que abriu uma fenda na mente. Do pesadelo, que tomara a vez da alegria e do amor, já entranhado na gruta da mente, não restava sequer o grunhido, o forro, a adaga, a chispa. Rondou as esquinas, mascarou-se pela manhã, desceu as noites na asa do morcego, empastou a memória de lama e foi-se. A alegria, secreta e pura, renasceu do fundo onde dormia, o amor, inventado e puro, adormeceu no alto onde luzia. Ladrão de liberdade não foi maior que essa súbita tempestade, vento que trouxe de volta tudo aquilo a quem por direito lhe pertencia, sem resgate. Nos anais duma casa incendiada não ficam cinzas, águas lavam chagas, a consolação é uma porta virada para o terreiro semeado, com trinados de madrugada e um recanto para repouso dos restos do raptor, e do seu hipotético arrependimento.

LV