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Luís Vendeirinho

BREVE CRÓNICA DE UM SEXAGENÁRIO

BREVE CRÓNICA DE UM SEXAGENÁRIO

No 1957 do Calendário Gregoriano, porque não nasci nem chinês nem árabe, as andorinhas fizerem o primeiro ninho na varanda desta casa. Elas vinham e iam, enquanto eu só ainda vim. À parte a alegria de meus pais, o mundo girava como sempre, com os primeiros passos da mágica televisão, a fundação da CEE, o satélite russo pioneiro ou a distinção Nobel de Camus. A alzheimer tem em mim um problema, que é desta memória onde reencontro os passeios com meu pai no jardim da avenida, a escola primária e os jogos do recreio, a sala de aula, os nomes, os nomes quase todos. Entre as paredes silenciadas – não digo silenciosas, digo silenciadas –, há mais histórias que guardo do que alguém tivesse tempo para as minhas confidências. O bairro, as lojas, as carreiras de autocarros da cidade, os mapas de terras onde não pude viajar, os mestres, o cinzento do Rossio com homens todos de chapéu, os guichés onde mal chegava de impressos na algibeira e moedas raras, coabitavam já com o sonho que era ele também esperança. Agora, percebo a inutilidade do meu primeiro relógio, do primeiro kispo, do primeiro diploma, do primeiro amor, da primeira carteira para o ordenado. Agora, o relógio incomoda, faz o frio da consciência, ignorante para o bem e para o mal, consolado sem merecer, pelintra por tradição. Se houver quem saiba como se reduzem sessenta anos em poucas linhas, diga-me: a mim prisioneiro das eras, dos milénios, dos séculos, e desta necessidade de desviar o olhar quando a multidão é maré adversa, e os amigos já naufragam entre lágrimas de luto. Estou chateado é com as dores do artelho, apesar de os médicos serem muito simpáticos e as minhas botas ainda serem cúmplices das escapadelas onde moram os barqueiros cujas barcas navegam sobre a pedra e os pastores dormem à sombra dos céus inteiros, onde há um rosto de luar.

LV