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Luís Vendeirinho

As palavras que ficam por escrever (crónica)

As palavras que ficam por escrever (crónica)

Tenho uma relação conflituosa com o meu relógio. Melhor, com esse adorno que agora confino a uma gaveta da minha secretária. A gaveta é útil, as horas também o são sempre que delas tiro o partido das minhas alegrias, em jeito das memórias. E, quando os ponteiros são como pássaros dados ao vento, caem as folhas do meu calendário, os homens inscrevem a sua história com nome de séculos, e os nomes das coisas afogam-se nas páginas dos dicionários. A mim, aqui junto das letras que ninguém lê – até ao dia da sua celebração, sem censores ou negritude sobre os olhares -, bastam-me o delírio da imaginação e a consolação dos meus humanos apetites. As palavras que ficam por escrever irei pô-las num testamento, junto com os objectos da minha devoção: um par de óculos, a fotografia da namorada, que incendiei, mas cujas cinzas guardo, as cartas de um baralho por abrir, por não saber jogá-las, e a caneta que o meu filho me ofereceu, reservada para assinar o meu documento de resignação, se tinta ainda houver. Há pouco o telefone tocou: eram notícias do outro lado do mundo. O carteiro bateu na porta com os nós dos dedos: havia uma notificação do tribunal (pensei que seria por não ter declarado a gaiola do canário, que nunca teve inquilino), mas só amanhã abro a carta. A máquina deu sinal de que a minha camisa-de-forças estava lavada, essa que uso sem o enfeite da gravata. A relação conflituosa com o meu relógio alivia-me da percepção de que, afinal de contas, aquilo que mais me incomoda são os espelhos: quando aparo as sobrancelhas, nos elevadores onde todos desviam o olhar para o chão, ao limpar o pó da moldura que faz lembrar a minha infância. E corro desenfreado adentro do sonho, atiro, como o pregão do velho amolador, palavras contra as portas da livraria, enquanto os objectos do meu desejo são rostos sem nome onde as rugas fazem lembrar a entranha duma árvore. Um destes dias vou embarcar no primeiro origami que o meu professor me ensinou, esse que guardo na gaveta onde o meu relógio repousa. Pode acontecer que alguém me faça companhia na viagem, nem que sejas tu, tu a quem minhas mãos oferecem as palavras que ficaram por dizer. Dentro em breve, vou atrasar as horas, vou tirar proveito do conhecimento das leis celestes. Tenho de pôr a máquina a lavar, com o problema irresolúvel de não me sentir pecador.

LV