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Luís Vendeirinho

ANTECÂMARA DA LIBERDADE

ANTECÂMARA DA LIBERDADE

Aquela sala de espera foi um martírio a que me fui habituando, pelo motivo que ali me levava, pela experiência em si mesma e pela conversa com o doutor que eu antevia. O que, em última análise, eram o espelho do mesmo problema: eu. E dei comigo a imaginar para que especialidade concorreria cada um dos rostos que ali conviviam, até ao dia em que entrou na sala um homem com idade para poder ser meu pai, bem-trajado, e veio sentar-se ao meu lado. Abriu um livro e ajeitou os óculos, num gesto que me fez supor a dificuldade na leitura. Mirei-o de soslaio, olhei a janela junto da qual eu tomara assento e, de instinto, dirigi-lhe a palavra para trocarmos de lugar. Ele sorriu e aceitou. Tentei em vão ver a que literatura ele se ia dedicar, com algum pudor em fixar as páginas abertas. Até que foi chamado para a sua consulta e, quando se ergueu, pude ler na capa da obra misteriosa: “Introdução à Espectrometria de Absorção Atómica”. Durante algumas semanas não nos voltámos a encontrar e, no entretanto, concluí que uma leitura era uma solução inteligente para aquelas meias-horas de tédio. Quando voltei a ver a personagem míope, ao entrar na sala, já ele se afundava na sua Introdução a qualquer coisa complicada, e fui fazer companhia a uma mãe de família, assim supus, para exibir o romance que eu tinha, numa operação bem sucedida, subtraído de uma livraria no Chiado: “O Amante de Lady Chatterley”.

O doutor exibia, sobre a secretária, uma miniatura de balança de dois pratos. Nunca usei da liberdade de lhe perguntar o que era pesado na consulta: se as virtudes e os pecados, se a verdade e a sua traição, se a lucidez e a loucura ou apenas as moscas que poisassem como testemunhas dos silêncios prolongados. Quando eu ficava a mirar a balança, o doutor fazia um esgar que nunca percebi se era troça ou outro sentimento que nunca lhe adivinhei. Na primeira consulta deu-me um papel para eu assinar e, como eu traçasse os nomes à laia de remate, observou que eu tinha feito um haraquíri. Antes no papel, pensei eu. As conversas eram um monólogo intermitente que navegava ao sabor de perguntas e deixas soltas, e as penitências resumiam-se à receita dos venenos que eu acreditava serem os néctares mais milagrosos. Demorou alguns anos até que a filosofia justificasse os honorários devidos.

Às doze horas desço a escada para abrir o cacifo do correio, nos dias úteis e logo que ouço o sino da paróquia. A chave está sempre no ponto exacto onde a poiso, na mesma posição. Se fosse cego, esta obsessão tinha outra utilidade, mas no caso serve apenas para me tranquilizar com desse ritual tão importante. Se me cruzo com a vizinhança, falo pelos cotovelos. Demorou eu entender que só lhe importa se faz chuva ou se alguém se finou em segredo. E também gosto de fazer algo que escapa ao comum dos mortais: olhar para as nuvens e ver onde ponho os pés, esta segunda conduta porque há cocós abundantes nos passeios do bairro. Em relação às inquietações não traduzíveis de forma entendível, mea culpa, não havia milagres. Até ao dia em que eu repararei nas rugas da testa do doutor, na palidez das suas mãos, e no olhar que era cansaço, sem dúvida a exaustão dum corpo velho. Nessa noite, enquanto me barbeava, a minha imagem no espelho embaciado disse que eu tinha a eternidade para me aliviar dos fardos, e jurei fidelidade à abstinência de tudo que seja o normal.

O doutor S – ele merece esta homenagem sigilosa – foi um actor habituado às minhas omissões, para usar um eufemismo. A mentira, valha o significado da verdade o que valer, é uma armadura, um cofre, um exercício da inteligência humana que vale louvores e conquistas. A balança escondia o óbvio: o equilíbrio entre o justo e o injusto, sem que se saiba em qual dos pratos se pesam a justiça ou a injustiça, porventura em nenhum, a crer nas sentenças dos homens.

Anos mais tarde, quis a sorte que eu descesse a rua do consultório nas minhas voltas pela cidade. As janelas, por onde entrara a luz do dia para benefício das antigas leituras, tinham escritos. Na parede do prédio alguém fizera um grafiti: a loucura é contagiosa, mas há vacina. Não concordei, nem discordei. Já não era problema meu. Pensei em ir ao Chiado gamar a “História da Loucura”, do Foucault, mas para viver à margem da lei já me bastava. Soube que o doutor S se finou, sem aviso, e consta que não teve vivalma nas cerimónias de encomendação. Ficaram na minha memória as mãos lívidas que usavam a caneta de tinta permanente para redigir as receitas e que, no final da consulta, apertavam as minhas. Tivemos ambos direito à nossa liberdade, cada um de nós à sua maneira.


Luís Vendeirinho