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Luís Vendeirinho

É TROLHA, MAS LÊ

É TROLHA, MAS LÊ

Sobre os degraus do escadote, pedestal insuspeito, o Martins ia falando de como cruzara o oceano, desde Terras de Vera Cruz, para enfim vir a usar da trincha, da lixa e da espátula, entre outros utensílios, a cuidar das paredes donde, eu mesmo, nunca ousei evadir-me. Os amigos não carecem que lhes coloquemos o título de “senhor”, e será por esta razão que não o uso neste pretexto: será o Martins, desde agora, e ponto final. O facto de ter agora o meu cárcere como novo, bem estucado, os rodapés como novos, o chão fruto da arte em o fazer realçar a beleza da madeira original, será de menor importância. Gostei de ouvi-lo, ao operário, enquanto me fazia seu íntimo acerca da sua fé, não da fezada, mas do credo e profissão de cristandade, como se essa sua identidade pudesse ser, ao mesmo tempo, prémio e consolo para a sua sorte de homem de trabalho, desses que lavam as mãos no fim do serviço e levam a roupa para ser cuidada no recato do lar. Por falar em lar, quando o Martins me cumprimentou por virtude de comparecer na apresentação do meu romance, cerimónia parca de presenças, com ele vinha a sua mulher, ambos trajados como eu uso fazer apenas em ocasiões especiais. O meu convite também fora especial: senti que, se alguém era digno dele, uma dessas pessoas chama-se o senhor Martins, “senhor” por direito próprio. Ainda não conversei com ele desde essa data, para mim lapidar, apenas imagino o meu livro entre as suas mãos, bebendo cada página sentado numa qualquer cadeira da sua casa, mergulhado em muitos mistérios que eu mesmo já havia inventado durante o acto sublime da redacção. Quando me colocam a questão sobre os motivos que me levam a escrever, a resposta essencial estará presa aos leitores que, como esse pintor revelado, fazem jus à arte, à deles e à dos que acrescentam aos seus sonhos das horas vagas. Longe de mim a ideia de misturar água com azeite, que não sou hábil em coisas domésticas, nem presumo ser o pincel manejado como uma simples caneta. Acontece é ser a função social do trabalho um conceito pouco respeitado, inquinado por preconceitos, pela sobranceria e servilismo dos que usam desses atributos. Pela minha parte, confesso ter-me seduzido a história que o Martins contou, ao evocar um dia em que, numa sala de espera de consultório, lia o seu livro. Um médico, ao cruzar o espaço, deve ter notado esse gesto particular da leitura e dirigiu-se ao Martins: “E vossemecê, o que é que faz?” – “Eu sou trolha.” – Então o médico dirigiu-se aos presentes e rematou: “Estão a ver? É trolha, mas lê.”

LV