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Luís Vendeirinho

Novidades

UM ANJO (VERSOS)
UM ANJO (VERSOS)

Hoje eu vi um anjoÁvido de esmola, no céuTirou o sol da cartolaE por sua arte foi-se o breu,Vi um anjo faminto, de um sorrisoDesenhado por sua arte no céu,Vi um anjo nu, na alegriaOnde me deu abrigo, o mendigoDeu-me uma migalha de pãoPara meu consolo, e abrigou-seBem dentro do meu olhar,Vi um anjo, preste a voar,Estendido no frio do chãoVi um anjo com rugas,Tão velho o anjo, na paredeSobre o...

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REPTO
REPTO

Há um tempo para nós, sem dataHá um dia para nós, sem horaNum sítio qualquer, há a urgênciaDos passos e a quietude dos astrosQue nos dedicam uma breve letraFazendo dos nomes um dicionário,E há as folhas deste Outono adiadoE as intempéries do calendárioE a fragrância dos corpos enleadosNo leito onde ressurgem degelos,Há a monótona cadência dos rituaisEntranhados de frio e suores mati...

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O GUICHÉ DA SOLIDÃO
O GUICHÉ DA SOLIDÃO

- Bom dia! É aqui o guiché da solidão?- Bom dia? Bem, depende... Trata-se de solidão de rico, ou será solidão de pobre?- Bem... Eu penso que será solidão de pobre, mas não tenho bem a certeza disso.- O senhor pensa que, ou tem a certeza?- (...) Tenho a certeza, e uma certa urgência.- O guiché da solidão de pobre é no piso inferior. Devo avisar que não atendem urgências.- Muito agrad...

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FRAGATAS
FRAGATAS

"Aí, onde afagas a margem da minha cidade, onde correm águas que fazem de prata o berço das fragatas e de cinza as amarras que deram vento ao pano das caravelas, aí se vão lembranças da minha infância, as vistas que de tão velhas quase não têm idade são ilhas na bruma da distância, os passos dos homens desaguam em tristeza à porta das manhãs e os dias vão de novo adormecer, sempre a...

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A Cinza das Mãos
A Cinza das Mãos

Havia um poema na margem das nuvensE letras escritas de madrugadaUm fogo adentro da folha de OutonoHavia palavras sob a cinza das mãosE teu rosto nos reflexos do marUm grito através da fronteiraHavia poesia a espumar na maresiaE perfumes duma epiderme maciaUm sonho de nome alvoradaHavia a ilusão de um profundo sonoE rugas cravadas nas memóriasUm fascínio na noite feita diaHavia as minhas, as ...

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O ESCRITOR POBRE E O ESCRITOR RICO (Conto de Natal)
O ESCRITOR POBRE E O ESCRITOR RICO (Conto de Natal)

Era uma vez dois amigos unidos pelo gosto que tinham pelas letras: o escritor pobre e o escritor rico. E cada um deles tinha também um filho, de que cuidavam como lhes permitiam os seus proventos. O escritor rico era conhecido por ter uma caneta de tinta de ouro, cujo manejo lhe granjeava a fama do seu talento e fazia ser respeitado por todos. Era muito viajado, conhecia meio mundo por conta das...

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BREVE NOTA SOBRE A CEGUEIRA
BREVE NOTA SOBRE A CEGUEIRA

"Acontece a tentação de olharmos a realidade pela rama. Conspirações e poderes absolutos, fenómenos globais e consequências inevitáveis, tentáculos ocultos e outros sinais da nossa "imaginação" como a vigilância dos nossos actos, resultam afinal da natureza dos homens, da forma como se organizam e dos interesses que os movem de forma individual e colectiva. A roda do progresso das socie...

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É TROLHA, MAS LÊ
É TROLHA, MAS LÊ

Sobre os degraus do escadote, pedestal insuspeito, o Martins ia falando de como cruzara o oceano, desde Terras de Vera Cruz, para enfim vir a usar da trincha, da lixa e da espátula, entre outros utensílios, a cuidar das paredes donde, eu mesmo, nunca ousei evadir-me. Os amigos não carecem que lhes coloquemos o título de “senhor”, e será por esta razão que não o uso neste pretexto: será...

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Flores e Incensos (soneto)
Flores e Incensos (soneto)

Se também cai neve sobre o teu ombroE na tarde o silêncio que se encostaVem cedo o frio que não entendoPara esta dor que em nós se encontraDos tempos longos resta o OutonoAs madrugadas lentas de um dia breveSonho de um céu onde me escondoEntre ilusões nossas de que cai neveO manto lento da memóriaCobre o meu ombro e teus silênciosSem que haja Sol, sem que haja glóriaFicam os cantos, as fl...

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BARQUEIROS (poema)
BARQUEIROS (poema)

Serão nossas estrelasO mar da luz, a luz das velas,E nós ali, em paz a vê-lasE à alvorada cada dia,Rasgando a terra molhadaOnde o Outono se incendeiaDando à alma, já iluminada,Os frios das neves, e da geada,E nem o sopro dos ventosQue desenfreados cantamCala promessas, quietas, lamentos,Porque nossas memóriasEncantadas dessa NaturezaSão mais que seu silêncio,São um amor que jorra, imenso...

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DUAS MALGAS VAZIAS (conto de Natal)
DUAS MALGAS VAZIAS (conto de Natal)

Sobre a toalha bordada da mesa, a mãe tinha colocado dois pratinhos de doce, coroados de pinhões e nozes. E duas malgas para a sopa que se preparava ao lume. A noite tinha caído nos montes, nas terras que suplicavam pela dádiva dos céus em jeito das chuvas que não caíam desde havia muito tempo. As arcas quase vazias das famílias prometiam jejuns, e todos ali oravam pela intercessão dos an...

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INFÂNCIA
INFÂNCIA

      Descem pelos lábios agarradas ao nome das coisas, as palavras. Como a tinta de uma tela, a conquista presa ao mastro da caravela, a areia fina que se esvai entre os dedos como pavio ardendo na coroa de uma vela. Dadas ao vento, à brisa, no imprevisto de um momento arrastam consigo a força do vendaval. Na transparência de uma fonte, da nascente, súbitas se fazem turvas em enxurrada...

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RIO SAGRADO (excerto de um inédito)
RIO SAGRADO (excerto de um inédito)

Um guarda-rios esvoaçava por perto, exibindo o azul das penas entre as sombras e os reflexos da água que ia cantando, solene e mansa, pelos meandros da pedra rosada. Apenas a dança dos alfaiates maculava a superfície do rio, um falcão-peregrino parecia imóvel contra o céu, uma salamandra dormitava sobre um tufo de ervas, a cor da vegetação, nas margens, prometia uma Primavera, cálida, em...

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A TABERNA (in
A TABERNA (in "A Página da Educação")

     Na taberna há cheiro a vinho, /Há videiras a dourar, /Aromas de bebedeiras, /Aduelas, pipas, lagar, /Moedas gastas no mármore /Lavado com panos velhos, /A luz estendida e ténue /Nos olhos que são os espelhos, /Em rostos que num esgar /Se apagam pelas tardes matreiras /Até a taberna fechar.         Outros tempos os do carvoeiro a coberto da flacidez da luz, a quem o balc...

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O TEMPO (poema)
O TEMPO (poema)

O tempo,        Essa recordação que de tão erma se faz em saudade,Essa privação da realidade apenas presa ao fio da memória,Esse grito por um instante a derramar-se em eternidade,Esse sorriso do luar a lembrar a palidez de toda a glória,Essa inocência que insiste em nos dar a mão,Esse abraço entristecido a iluminar cada ilusão,Essa miragem de luz num olhar de felicidade,Esse cam...

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BREVE CRÓNICA DE UM SEXAGENÁRIO
BREVE CRÓNICA DE UM SEXAGENÁRIO

No 1957 do Calendário Gregoriano, porque não nasci nem chinês nem árabe, as andorinhas fizerem o primeiro ninho na varanda desta casa. Elas vinham e iam, enquanto eu só ainda vim. À parte a alegria de meus pais, o mundo girava como sempre, com os primeiros passos da mágica televisão, a fundação da CEE, o satélite russo pioneiro ou a distinção Nobel de Camus. A alzheimer tem em mim um ...

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John Lennon: De Liverpool a Nova Iorque (Biografia)
John Lennon: De Liverpool a Nova Iorque (Biografia)

      Ao fazer-se a história da música do século XX, o nome de John Lennon é incontornável na sua importância, ou não viesse a ser considerado pela revista Rolling Stone, já em 2008, o quinto melhor cantor de todos os tempos. Faz setenta e oito anos que nasceu em Liverpool, a 9 de Outubro de 1940, cidade a que ficou ligado de forma indelével pelos bons auspícios da sua carreira bri...

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O AUTOCARRO DAS DEZANOVE (Crónica)
O AUTOCARRO DAS DEZANOVE (Crónica)

Eramos seis, à luz mortiça do candeeiro. O sem-abrigo, com o esqueleto embrulhado na pele macilenta e enrugada, vasculhava nos sacos algum tesouro. Dos quatro garotos, um deles, o mais franzino, via a vida por trás de uns óculos redondos, e ia-se deixando embalar na brincadeira dos amigos. O mais encorpado de obesidade, loirito, respondia aos pontapés dos demais na mesma moeda, e aos insultos...

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O BURRO (conto de Natal)
O BURRO (conto de Natal)

Maria, José e uma criança de berço, que ambos cuidavam, viviam numa terra pobre, conhecida nos arrabaldes pelas colheitas generosas que o chão dos senhores dava e pela bonomia da sua gente. Maria bordava os seus panos finos e zelava pela casa e pelas flores do seu jardim. José inspirava-se na beleza da natureza para pintar as suas telas, que sempre oferecera aos vizinhos, e, logo que era cham...

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ONTEM À TARDE (POEMA)
ONTEM À TARDE (POEMA)

Ontem à tarde, enquanto chovia,A chuva beijava a vidraça da nossa janela,E tu, sentada no recanto da sala,Pregavas um botão de fantasiaSobre o pano da camisa de flanela,Ontem, ao fim da tarde,Enquanto com uma agulhaQue pelos teus dedos cosia,Me pregavas o botão da minha camisa verde,De flanela,Teu olhar sorria, e via para alémDa vidraça da janela, onde a chuva batiaE beijava o olhar que ali ...

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QUANDO OS CAVALOS RELINCHAM
QUANDO OS CAVALOS RELINCHAM

Diz-se que, no colo das nossas mães, nos afirmávamos pelo “não”. Era tudo novo: o dia e a noite, os carinhos, o calor do seio, as vozes que agora nos acompanham ao longo do tempo. Até que um mestre, do alto da férula, nos obrigou ao “sim”. Hoje temos leis e códigos, na teia dos preconceitos, filhos ilegítimos da moral, as palavras são medidas como o grão e o feijão o eram na merc...

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O MUNDO DA LUA
O MUNDO DA LUA

Não sei se serão sonho ou magia, vindos desde os céus em jeito de luar. Sei apenas dessa eterna melancolia, dessa luz a repousar nos ebúrneos mares, que desenha sombras no colo do arvoredo como letras que se despenham em segredo, no pasmo e na fome de desflorar páginas seculares. Não sei, que nunca houve um olhar, nocturno e fascinado, que tenha contemplado as feridas de nossa estrela mãe c...

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FERNANDO (versos)
FERNANDO (versos)

FERNANDO…Não sei,Nem nunca hei-de saber,Como não sei a origem do mundoNem a razão dos sonhos incompletos,Nunca saberei das vidas perdidasÀs portas do meu bairro, das vidas,Não sei, e talvez por não saberMe doa o meu silêncio, rasgado,Não sei e, se for pecadoO não saber das vidas, rasgadasÀs portas onde começa o dia,Saberei apenas deste o começoOnde teu olhar iluminadoMe deu, ó anjo ...

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O FATO AMARROTADO (conto)
O FATO AMARROTADO (conto)

Era o melhor fato que tinha guardado. A última vez que a mulher o engomara fora no baptizado do filho, com o esmero dos gestos que naquele serão voltava a dedicar aos punhos e à gola, bem vincados, passando a goma com o ferro a carvão enquanto cantarolava na penumbra do quarto. “Amanhã não te irão reconhecer. Os botins já estão a brilhar”. E José dizia que sim em silêncio, paredes-m...

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As palavras que ficam por escrever (crónica)
As palavras que ficam por escrever (crónica)

Tenho uma relação conflituosa com o meu relógio. Melhor, com esse adorno que agora confino a uma gaveta da minha secretária. A gaveta é útil, as horas também o são sempre que delas tiro o partido das minhas alegrias, em jeito das memórias. E, quando os ponteiros são como pássaros dados ao vento, caem as folhas do meu calendário, os homens inscrevem a sua história com nome de séculos,...

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O DESPERTAR DAS TÁGIDES
O DESPERTAR DAS TÁGIDES

No colo das águas mansas, adormecidas,           Repousa o olhar.           Com ele cintilam, mais além,           As margens entretecidas pela bruma           Em frágeis e azulados nevoeiros,           Num bailado que os lentos cacilheiros           Afrontam no roncar pela viva espuma           E sobre a me...

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SOBRE A NATUREZA DAS LETRAS
SOBRE A NATUREZA DAS LETRAS

      As Letras são generosas, atentas à nossa sede de evasão, disponíveis em todo o espaço da nossa habitação, permanentes, desde a manhã em que nos insinuamos perante o mundo até que dele nos despedimos para esse destino de que elas nos aliviam, como nos aliviam das certezas e do tédio.           As Letras são a forma sincera dos nossos segredos, encorajam-nos na adve...

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